O ponto de identificação da história com o público é o personagem. É fundamental que a identificação e empatia por parte do público aconteça. Como você tem desenvolvido os personagens nos seus cursos e-Learning?

A criação de personagens é um dos momentos mais delicados do roteiro. O personagem é o elemento que deve criar a empatia e identificação com o público. Se não for estabelecida essa ligação, é quase certo que a história será rejeitada pelo público. Por isso, vale a pena dedicar um bom tempo ao desenvolvimento dos personagens, buscando detalhar suas características, sua personalidade, algumas manias e trejeitos que os tornem marcantes.

Não necessariamente o personagem deve ser exatamente como o público, por exemplo, num curso para vendedores o personagem ser um vendedor. E nem precisa também fazer parte do universo do público, como no caso de num curso para corretores do mercado financeiro o personagem ser um cliente ou um economista. A principal proximidade do personagem com o público deve ser por emoção.

Vou explicar melhor: as pessoas se identificam com outras pessoas, animais ou situação por que sentem as mesmas emoções. Uma mãe que reencontra a filha emociona o público que não tem filhos por meio da alegria da reunião familiar. Uma situação que oprime alguém cria empatia com o público que não gosta de ver injustiças e busca superar as dificuldades. Não necessariamente o público precisa ser oprimido como o personagem para se identificar. Assim, você deve encontrar no seu público qual a emoção está em jogo e que pode ser trabalhada no roteiro.

Vamos voltar ao exemplo de um curso para vendedores. Qual emoção está mais presente no dia-a-dia deles? Pode ser a superação ou o desejo por vitória? Então seu personagem pode ser um atleta, um jovem pássaro tentando o seu primeiro vôo. Pode ser qualquer outra coisa que também transite nessa emoção, porque a chance de criar identificação e empatia aumentará, sem falar que tirando o público do seu dia-a-dia, aumentará também a aprovação à história.

Você pode ter notado que as vezes pensar num personagem ajuda a poder definir a storyline. Isso é verdade. Geralmente quando se estabelece a idéia da história para definir o storyline, os personagens surgem instantaneamente. Ou assim que um tipo de personagem vem à mente, imediatamente uma idéia de história surge. História e personagem estão sempre ligados.

Bom, depois que você já escolheu seu personagem é hora de desenvolvê-lo. E aqui não tem segredo. Nesse momento é hora de dar vida ao personagem imaginando como ele será em três aspectos: físico, psicológico e sociológico. A questão física é simples, pois é justamente as características do corpo e da aparência de seu personagem. No aspecto psicológico, basta definir como ele pensa, quais são seus objetivos na vida, os códigos morais que trás, se ele é corajoso, audacioso ou recatado, introspectivo, etc. No aspecto sociológico você precisa definir o que diz respeito ao relacionamento do personagem com a sociedade, como por exemplo, a classe social, o nível de estudo, o que gosta de fazer no lazer, livros que lê, com quem se relaciona, seu estilo de vida, etc.

Nem tudo o que você definir nesses aspectos deverá aparecer no roteiro de forma direta. Tudo estará indiretamente, refletido no comportamento e nas atitudes do personagem. Quanto melhor você definir isso, mais possibilidade terá de torná-lo verdadeiro.
Por exemplo, se seu personagem é um jovem pássaro que vai dar seu primeiro vôo e que adora ouvir rap, você não precisa criar uma cena dele ouvindo rap, mas quando o jovem pássaro for falar, andar ou se vestir, o público já identificará o estilo musical preferido dele.

Quanto mais você puder detalhar os três aspectos, melhor ficará o seu personagem e mais forte ele ficará na sua história.

Bruno R. Módolo é roteirista e sócio da Garoa Fina, um estúdio dedicado ao desenvolvimento de roteiros e histórias para TV, Cinema e Publicidade. Entre os principais trabalhos da empresa estão o documentário Rompendo o Silêncio, com o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso, o reality show Menina Fantástica para a TV Globo e o roteiro de animação Back Home, selecionado para o 13 Laboratório Internacional de Roteiros SESC Rio.

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