Por Renato de Amorim Gomes
Como já discutimos no artigo “a Família do Designer Educacional no Brasil”, a primeira área que o Relatório de Atividades da CBO (classificação brasileira das ocupações) aborda chama-se: A. Implementar a Execução do Projeto Pedagógico/Instrucional. Esta área possui 11 atividades, a saber:
1.Acompanhar o desenvolvimento do trabalho docente/autor
2.Assessorar o trabalho docente
3.Administrar a progressão da aprendizagem
4.Acompanhar a produção dos alunos
5.Elaborar textos de orientação
6.Produzir material de apoio pedagógico
7.Observar o desempenho das classes
8.Sugerir mudanças no projeto pedagógico
9.Administrar recursos de trabalho
10.Organizar encontro de educandos
11.Interpretar as relações que possibilitam ou impossibilitam a emergência dos processos de ensinar
Importante!
Pensar nestas atividades do Designer Educacional requer refletir a sua aplicação sob os seguintes aspectos: que tipo de instituição da Educação a Distância o Designer Educacional atua (fornecedores, cursos livres, área acadêmica ou corporativa)?; qual o público-alvo (educação básica, educação profissional, educação de adultos)?; que tipo de modelo de Design Instrucional está sendo aplicado (design instrucional fixo ou flexível)?;qual a modalidade (e-learning síncrono, assíncrono, presencial ou blended)?
Estas atividades relacionadas pela CBO podem ser exercidas com maior ou menor intensidade, de acordo com estes aspectos. Exemplo: a atividade 6. Produzir material de apoio pedagógico é amplamente exercida por Designers Educacionais que atuam em Fornecedores de Produtos e Serviços de Educação a Distância, ao passo que a atividade 7. Observar o desempenho das classes pode ser amplamente aplicada por DEs que atuam em Instituições Acadêmicas.
Discutirei o que compreendi sobre estas atividades, observando alguns dos aspectos citados sob a minha vivência profissional:
1.Acompanhar o desenvolvimento do trabalho docente/autor: quando o Designer Educacional atua em um programa complexo de desenvolvimento de conteúdos, ele pode orientar e ajudar a estabelecer padrões para que os vários conteudistas (SMEs – Subjects Matters Experts) tenham uma “linha mestra” de desenvolvimento. Exemplo: numa universidade, uma equipe com vários docentes realizam simultaneamente o desenvolvimento dos conteúdos de suas respectivas disciplinas. Cada qual pretende realizar da sua forma a estruturação do conteúdo. Para garantir um mínimo “denominador comum” entre os materiais, o Designer Educacional pode propor aos SMEs uma estrutura básica a ser utilizada. Seguir os nove eventos externos que influenciam no aprendizado do Dr. Robert Gagné pode ser uma boa alternativa!
Os nove eventos externos que influenciam no aprendizado são:
*Obter a Atenção
*Informar os Objetivos para os Estudantes
*Estimular a recuperação de conhecimentos prévios
*Apresentar o material instrucional
*Providenciar a orientação da aprendizagem
*Obter gradualmente o desempenho do estudante
*Oferecer retorno sobre o desempenho
*Avaliar o desempenho
*Aumentar a retenção e a transferência
Fonte: Principles of Instructional Design
2. Assessorar o trabalho docente: muitas vezes, o conteudista que detêm um alto grau de conhecimento sobre um assunto apresenta dificuldades na transposição do conteúdo que está em sua “cabeça” para o “papel”. O Designer Educacional pode contribuir com este especialista, indicando uma “categorização didática” dos assuntos que o especialista poderá abordar. Exemplo: indicar ao conteudista sobre a necessidade de escrever “exemplos”, “sugestões de leitura” (saiba mais), “curiosidades”, destacar pontos “importantes” no conteúdo, apresentar “estudos de casos”, entre outros. Esta é uma categorização de conteúdos, sob aspectos de relevância!
3. Administrar a progressão da aprendizagem: o Designer Educacional deve tomar decisões durante um curso com base nos dados de progressão que estão sendo apresentados pelos alunos. Exemplo: em um curso a distância, o Designer Educacional percebe que o grupo de 12 alunos, de uma turma de 30, não estão realizando as atividades propostas. Com base nestes dados, ele poderá tomar a decisão de manter contato com estes alunos e ajudá-los pontualmente, ou mesmo modificar o projeto pedagógico para obter maior retorno.
4. Acompanhar a produção dos alunos: em um modelo onde o DI atua com a tutoria, uma das suas responsabilidades é a de acompanhar os alunos no desenvolvimento das suas atividades. Se for proposto uma atividade, é importante oferecer instrumentos de feedback aos alunos. Exemplo: foi proposto ao aluno o desenvolvimento de um resenha critica, que deverá ser devolvida via ambiente virtual. O Designer Educacional/tutor deverá acompanhar a produção deste aluno, fornecendo o feedback necessário.
5.Elaborar textos de orientação: o desenvolvimento de guias de orientação, programação das aulas, tutoriais de acesso, manuais de ajuda e boas-vindas ao curso se enquadram nesta atividade. Exemplo: o aluno tem acesso durante 2 meses em um curso e você produz um “cronograma de estudos”, propondo que realize o estudo dos materiais em cada uma das 8 semanas previstas. Alunos que possuem grau elevado de disciplina talvez estabeleçam seu próprio ritmo, mas alunos que preferem uma programação poderão seguir a sua proposta.
6.Produzir material de apoio pedagógico: esta é, sem dúvida, uma das mais lembradas atividades do Designer Educacional. Os materiais de apoio pedagógico podem ser desenvolvidos para o formato analógico (livros e manuais didáticos para os alunos, material de apoio para o instrutor, etc) ou digital (Curso on-line auto-instrucional, CDROM, Rapid Learning, Game, etc). Esta atividade requer competências de produção multimídia do Designer Educacional, uma vez que estes materiais serão resultantes de um processo produtivo com uma equipe multidisciplinar, que agrega profissionais de web design, diagramadores, ilustradores, programadores, conteudistas, etc. Se for um modelo de Rapid Learning, poderá ser requerido ao Designer Educacional a produção autônoma do material de apoio pedagógico. Aqui, vale citar algumas recomendações de design: criação de identidade visual, iconografia coerente com o curso, adequação de formato para atender alunos que preferem estudo offline (impressão) ou online (com acessibilidade, boa navegabilidade e usabilidade), recursos visuais e auditivos coerentes com a tecnologia disponível pelos alunos e pelos seus canais de percepção.
7.Observar o desempenho das classes: acompanhar turmas tem sido uma das atividades dos Designers Educacionais no nível de tutoria. A partir de relatórios gerados pelos AVAs (Ambientes Virtuais de Aprendizagem), poderão ser propostas atividades diferenciadas. Exemplo: nota-se que numa determinada turma de alunos, há grande interação no fórum. Este é um ambiente “propicio” para aplicar atividades em grupo, pois os alunos estão “virtualmente amadurecidos” para utilizarem sistemas de mensageria eletrônica e outros recursos síncronos. Ao contrário, quando nota-se baixa interação e diálogo dos alunos em ambientes assíncronos (fóruns e emails), esta mesma situação pode ocorrer num ambiente síncrono.
8. Sugerir mudanças no projeto pedagógico: um projeto pedagógico pode não apresentar os resultados esperados pela instituição e pelos alunos. Neste caso, com base em levantamentos de avaliações de reação e somativas, é interessante mudar a estratégia pedagógica. Exemplo: nota-se que os alunos apresentaram baixo desempenho em uma determinada matéria ministrada on-line, de forma assíncrona. Após análise, verificou-se que o material era demasiadamente textual e não agregava outros elementos multimídia para explanações (infográficos, fotografias, ilustrações, animações didáticas, vídeos). Após o “redesign” deste material, com uma editoração com mais recursos visuais e bem arejados, percebeu-se melhor desempenho dos alunos.
9. Administrar recursos de trabalho: dentre os recursos de trabalhos a serem administrados, podemos citar os recursos humanos (equipe de arte, programadores, diagramação, revisão e produtores de áudio e vídeo ), recursos de tecnologia (softwares de autoria, design, gerenciamento) e recursos de conteúdo (banco de imagens, de objetos de aprendizagem, vídeos e áudios).
10. Organizar encontro de educandos: proporcionar momentos síncronos entre os alunos, por meio de reuniões em chat, webconferência com vídeo e voz, sistemas de mensageria eletrônica, estabelece a sensação de companhia num curso on-line. Prever e proporcionar estes momentos, quando forem possíveis e se encaixarem na estratégia didática, é uma das importantes atribuições do Designer Educacional.
11. Interpretar as relações que possibilitam ou impossibilitam a emergência dos processos de ensinar: existem situações em que o processo de ensino merece atenção especial, pois o baixo desempenho em uma tarefa por conta da falta de competências pode acarretar resultados negativos para uma organização. Diante disto, cabe ao Designer Educacional interpretar se o problema educacional ocorre, de fato, pela ausência de uma solução instrucional ou está sendo acarretado por outros fatores. Exemplo: um grupo de funcionários não está satisfeito com a sua remuneração, e diante disto, tem desempenhado mal suas atividades. É o tipo de problema “motivacional” que a solução instrucional não poderá equacionar sozinha.
No próximo artigo, falaremos de outra importante área de atuação do Designer Educacional, composta por 14 atividades: Avaliar o Desenvolvimento do Projeto. Até lá!
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