Repensando Modelos de Aprendizagem corporativa Diante da IA

A IA como tensão, não como resposta pronta
A incorporação da Inteligência Artificial no cotidiano das empresas não está apenas introduzindo novas ferramentas. Ela está tensionando pressupostos antigos sobre como as pessoas aprendem no trabalho, como o conhecimento circula nas organizações e qual é, de fato, o papel da educação corporativa nesse contexto. O debate relevante não é se a IA será adotada, mas o que ela expõe sobre a fragilidade dos modelos de aprendizagem que ainda sustentam muitas estratégias de T&D.
Mais do que uma inovação tecnológica, a IA funciona como um espelho. Ao operar em tempo real, aprender com dados dinâmicos e se integrar aos fluxos cotidianos de trabalho, ela evidencia o descompasso entre a complexidade atual das organizações e estruturas de aprendizagem baseadas em previsibilidade, controle e linearidade.
O esgotamento dos modelos tradicionais de aprendizagem
Durante décadas, a educação corporativa se estruturou a partir de lógicas relativamente estáveis: cursos lineares, trilhas fixas, catálogos fechados e treinamentos pontuais, geralmente acionados como resposta a demandas específicas. Esses modelos pressupõem uma separação clara entre aprender e trabalhar, como se o desenvolvimento pudesse acontecer fora do contexto real de decisão, execução e interação.
A presença crescente da IA torna esse arranjo cada vez mais questionável. O conhecimento deixa de ser algo consumido prioritariamente em momentos formais e passa a ser acessado, construído e aplicado no próprio fluxo do trabalho. Nesse cenário, cursos fechados e experiências desconectadas do cotidiano profissional não perdem relevância por falta de qualidade, mas por inadequação estrutural.
A redefinição do papel de L&D
Esse deslocamento impacta diretamente o papel das áreas de Learning & Development. A lógica de produção de cursos, por si só, torna-se insuficiente diante da necessidade de aprendizagem contínua, contextual e distribuída. O desafio passa a ser o desenho de ecossistemas que favoreçam a aprendizagem enquanto o trabalho acontece.
Isso implica apoiar a autonomia das pessoas, criar condições para reflexão sobre a prática, facilitar o acesso a conhecimento relevante no momento certo e estimular o desenvolvimento de capacidades cognitivas mais amplas. Nesse contexto, a IA pode desempenhar um papel relevante, desde que integrada a uma estratégia educacional clara e coerente.
IA como meio pedagógico, não como fim
Discussões mais maduras sobre o tema, como as propostas por Josh Bersin, apontam para uma mudança conceitual importante. A IA não substitui o pensamento educacional; ela amplia suas possibilidades. Sistemas inteligentes podem apoiar personalização, curadoria, recomendações contextuais e suporte à tomada de decisão. No entanto, esses ganhos só se materializam quando há intencionalidade pedagógica orientando seu uso.
Sem essa intencionalidade, a tecnologia tende a reforçar práticas antigas com uma camada adicional de sofisticação técnica. A promessa de personalização, por exemplo, perde sentido em organizações que não reconhecem a diversidade de contextos, ritmos e necessidades reais de aprendizagem.
Hype tecnológico e limites organizacionais
Tratar a IA como solução automática para problemas de aprendizagem ignora que grande parte desses problemas é cultural, organizacional e estrutural. Empresas com baixa maturidade em aprendizagem frequentemente reproduzem modelos instrucionais limitados, mesmo ao adotar tecnologias avançadas.
O framework da AI Pyramid, ao discutir capacidades da força de trabalho em diferentes níveis, ajuda a evidenciar esse ponto. Antes de pensar em aplicações sofisticadas, é necessário consolidar fundamentos como clareza de propósito, competências essenciais, dados confiáveis e processos educacionais coerentes. Sem essa base, a IA tende a oferecer respostas rápidas, mas pouco transformadoras.
O contexto brasileiro e suas tensões específicas
No contexto das empresas brasileiras, essas contradições se tornam ainda mais visíveis. Desafios como baixa cultura de aprendizagem contínua, estruturas hierárquicas rígidas e expectativas imediatistas de retorno dificultam a adoção de modelos mais maduros. A IA, nesses cenários, costuma ser utilizada de forma instrumental, com foco em eficiência operacional, e não como parte de uma estratégia de desenvolvimento humano.
Esse cenário reforça a necessidade de uma atuação crítica por parte de RH, T&D e designers educacionais, capazes de avaliar não apenas o potencial da tecnologia, mas a capacidade real da organização de absorver novos modelos de aprendizagem.
O papel insubstituível do design educacional
Diante desse panorama, o fator humano não apenas permanece central, como se torna ainda mais estratégico. O design educacional é o elemento que articula tecnologia, cultura organizacional e intencionalidade pedagógica. Cabe a ele definir o que deve ser automatizado, onde a mediação humana é indispensável e como a aprendizagem se conecta aos desafios concretos do trabalho.
A IA pode ampliar o alcance dessas decisões, mas não pode substituí-las. Sem critérios pedagógicos claros, o risco é confundir acesso à informação com aprendizagem efetiva.
Uma reflexão em aberto
Repensar os modelos de aprendizagem corporativa diante da Inteligência Artificial não é, portanto, um exercício tecnológico. É um movimento conceitual que exige revisar formatos, papéis, expectativas e a própria compreensão do que significa aprender no trabalho. A IA intensifica esse debate, mas não o resolve. A resposta continua dependendo da capacidade das organizações de redesenhar suas práticas de aprendizagem com consciência, criticidade e responsabilidade.
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Referências
Bersin, J. (2025). Bersin calls for rethink of corporate learning in the AI era. Learning News. https://learningnews.com/news/learning-news/2025/bersin-calls-for-rethink-of-corporate-learning-in-the-ai-era
Alura Empresas. IA no aprendizado corporativo: possibilidades e desafios. https://www.alura.com.br/empresas/artigos/ia-no-aprendizado-corporativo
Gouveia, R. IA na educação corporativa: do hype à prática. LinkedIn. https://pt.linkedin.com/pulse/ia-na-educa%C3%A7%C3%A3o-corporativa-do-hype-%C3%A0-pr%C3%A1tica-um-playbook-gouveia-xmbff
Instituto de Desenvolvimento e Inovação (IDI). O futuro da educação corporativa. https://www.idi.com.br/post/o-futuro-da-educacao-corporativa
Zhou, Y. et al. (2026). The AI Pyramid: A conceptual framework for workforce capability. arXiv. https://arxiv.org/abs/2601.06500